quinta-feira, novembro 12, 2015

Uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo

Um padre passa e é olhado de forma estranha. Como se fosse algo estranho. Respondem ao seu cumprimento, mas não deixam de murmurar Ali vai o padre. Como se um padre fosse um espécimen raro de ser humano. E se há quem olhe para os padres com admiração, é maior o número daqueles que os olham com pena ou indiferença. Há muita gente que não entende como um homem deixa tanta coisa que o mundo lhe oferece para se tornar padre. São capazes de o associar a Deus, mas a um deus que também é uma coisa rara, uma coisa inventada por uns homens que se intitulam a si próprios de padres. Um padre, à partida, não é bem humano. É uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo. 
E deste modo, como poderá o padre ser dos nossos? Como poderá ser aquela pessoa com quem eu quero estar porque é também uma daquelas pessoas que caminha comigo, ao meu lado?! 
Confesso que sou meio estranho. Não gosto de pensar como essas pessoas que pensam nos padres como um ser estranho. 

No final de mais uma semana dos Seminários, valerá a pena pensar nisto?

32 comentários:

Anónimo disse...

Ahahahahah.... deixa-me primeiro reconhecer que tens um grande sentido de humor!
Agora sim, posso começar a pensar nisso com a naturalidade com que se pensa em algo estranho, porque sim, vale a pensa pensar nisso...

Anónimo disse...

Boa tarde,
"É uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo"

não será um bocadinho radical?
A mim até me parece que eles, os padres, estão mais inseridos na sociedade e são tratados e vistos, de um modo geral, como pessoas normais.
Se fosse aqui há uns anos, até concordava um bocadinho, pois ás vezes pareciam um pouco estranhos, até pela maneira de vestir, mas hoje? não me parece, pelo contrário!!
Está com o astral um pouco em baixo... não'?

Confessionário disse...

12 novembro, 2015 17:15

Eu tb me ri depois de ter lido o que acabara de escrever. Mas publiquei aquilo que estava a pensar no momento.

Confessionário disse...

12 novembro, 2015 17:3

Tens uma certa razão quando, às vezes, temos o inverso: um padre que é tão igual aos outros que nem se percebe que seja padre. Vá, estou a exagerar!
Imagina que escrevi este texto no meio da minha oração. Estava diante do sacrário e a perguntar-me porque não haveria mais vocações ao sacerdócio, e dei por mim a pensar que muita gente de facto nos vê como algo raro. E se nos aproximamos da raridade, como podemos dizer a um jovem que pode ser padre?! Estás a ver, como se fosse uma coisa só para tipos esquisitos!
E olha que há muita gente, mesmo paroquianos nossos, que nos olham como se fossemos estranhos, seja especiais, sejam esquisitos!

Anónimo disse...

Eu não olho assim os padres, mas tenho amigos que nem podem ouvir falar deles e logo vem a lenga-lenga do dinheiro, do poder, do sexo e afins...

Anónimo disse...


Para mim os padres são representantes de Deus.
Com os seus defeitos e qualidades.
São homens como os outros. Mas!!! Por vezes
alvo de contradições.
Que posso pensar dum padre?! Anjo ou homem?

Paulina Ramos disse...

Bom dia!

Em tempos idos incentivava o meu filho a apostar na formação religiosa na igreja católica.
Deixei de o fazer porque me deparei com tamanho cinismo e hipocrisia por parte de quem deveria servir de orientação, que jamais deixaria a cargo desses seres a orientação religiosa dele.

Somos todos muito iguais e ser padre deveria ser uma vocação um projecto de vida algo deveras nascido do âmago de cada ser, muitas vezes não é, e é esse facto que prejudica quem deveras sente o tal apelo.

São excelentes gestores, economistas, professores, "reitores", acumulam demasiadas funções, querem fazer passar a ideia de ser tão ocupados que não lhes resta tempo para ser Padres. No entanto a falha está na falta de coragem para admitir que lhes faltou no inicio e continua a faltar a vocação.
É deste cinismo que falo mais abertamente sem medo de excomunhão.
Claro que quando aconselhamos algo que não cumprimos, quando nos colocamos num patamar de santidade inatingível sim somos notados, não por sermos melhores mas por nos tornarmos ridículos sem credibilidade alguma.

Como em todas as áreas há excepções e feliz daquele PADRE, que foge à regra e ousa ser genuíno num mundo tão habituado ao cinismo.

Paulina Ramos disse...

Só mais uma observação.

Ri com a imagem do ser "uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo".
Imaginei o padre lá da paróquia a ouvir alguém referir-se a ele com esta expressão.

Ele mostraria no momento quem é que era essa "coisa híbrida"... afinal haja respeito nem que seja apenas pelos mais "velhos".

Anónimo disse...

A compreensão da vossa escolha depende da sensibilidade e, largamente, da nossa própria percepção de Deus e da relação que conseguimos estabelecer com Ele.
Quando Deus é apenas uma ideia, ou menos que isso, uma fantasia, é natural que o padre seja visto como uma vítima da sua própria ilusão, como alguém a que não valerá a pena passar grande cartão ou mesmo como um embusteiro; quando o estado da nossa relação com Deus é morno, custa a perceber a vossa renúncia, mas já há admiração, embora o padre continue a ser entendido como um espécimen raro; quando a relação com Deus é de intimidade, entende-se e admira-se.
O padre pode não ser algo estranho, mas há algo estranho em ser-se padre: a radicalidade. Por isso preferia que o Sr. Padre se confessasse estranho por inteiro.

Anónimo disse...

Bom dia Confessionário.
Vem a propósito este teu desabafo.
Ouvi ontem o comentário entre duas senhoras.
-Então, vocês têm padre novo lá na paróquia?
-Pois temos. Mas é tão novo e tão bonito , que até é mal empregado ter ido para padre!
Dei comigo a perguntar. Haverá alguém "mal empregado" para servir a Deus?

JS disse...

Tudo depende do que estranham no padre.

Conheço um padre novo que muitos achavam estranho por teimar em andar com um carro velho.

Tem de haver estranheza. Tem de haver espanto. Tem de haver questionamento.

JS disse...

Hoje em dia, para se ser estranhado, basta afirmar-se cristão.

Sobretudo se o mostrar ser de forma alegre, convicta e comprometida...

Anónimo disse...

“E deste modo, como poderá o padre ser dos nossos? Como poderá ser aquela pessoa com quem eu quero estar porque é também uma daquelas pessoas que caminha comigo, ao meu lado?!”

O pastor caminha à frente, ao lado, no meio das ovelhas, mas não se mistura com elas. O padre não é cá dos nossos, porque não quer ser “um” de “nós”. Ou quererá?!

Confessionário disse...

13 novembro, 2015 13:41

A questão não passa pela palavra "mistura". Soa esquisita. Soa a que tudo o que se mistura é igual e faz-se uma mixórdia que depois já não se sabe o que é o quê!
Por isso eu uso muito a palavra "caminhar"... porque a ideia é que caminhamos todos, cada um à sua maneira, mas ladao a lado. E nesta lado a lado, segundo o Papa, uma vezes o pastor há-de ir à frente, outras ao lado, outras atrás.

JS disse...

Santo Agostinho dizia aos seus fiéis: "convosco sou cristão, para vós sou bispo".

O padre tem de se saber ovelha junto das ovelhas irmãs, pois o verdadeiro Pastor é Deus; mas tem de encarnar também a figura do pastor, em favor das ovelhas que, não deixando de ser suas irmãs, são chamadas a segui-lo, para bem do próprio rebanho.

Esta tensão entre proximidade e distância, entre semelhança e diferença, cada padre tem de saber aceitá-la no seu desconforto, e geri-la segundo o seu carácter e as circunstâncias que o rodeiam. Sem receitas prévias ou modelos definidos a priori.

Confessionário disse...

JS,
"Tem de haver estranheza. Tem de haver espanto. Tem de haver questionamento."
Como Jesus o era. Mas que isso seja admiração, busca, querer, e não desdem. O desdem não ajuda...

Confessionário disse...

13 novembro, 2015 10:40

Gostei muito do teu comentário em especial!

Confessionário disse...

JS, agora que li teu último comentário (ainda não tinha visto), realço o que dizes citando S. Agostinho. É nessa tensão que a nossa vida de sacerdotes deve ser especial e bem gerida..."Sem receitas prévias ou modelos definidos a priori."

JS disse...

"Como Jesus o era. Mas que isso seja admiração, busca, querer, e não desdem. O desdem não ajuda..."

Ó Confessionário, mas então Jesus também não foi objecto de desdém, de escárnio, de indignação, de ódio? Não foi considerado louco, não tentaram por várias vezes agredi-lo? Não andaram à volta dele com falinhas mansas, intrigas e perguntas trapaceiras? Não o trairam e abandonaram?

No dia em que um cristão (ou um padre) quiser sorte diferente da do seu Mestre...

Coruja Sábia disse...

Meu amigo, todos nós somos esquisitos, mas devo dizer que sorri um pouco do final. Realmente devo dizer que as pessoas olham com olhares tortos para um padre, será a roupa preta junto as suas longas batinas condecoradas? Ou será o modo calmo e sossegado na fala? Não sei te dá uma resposta. Acho que as pessoas olham os padres como pessoas determinadas da sua fé. Eu direi a minha visão sobre os senhores. Eu vejo num padre um pastor de ovelhas, cuidador das almas perdidas, um auxilio, uma luz e acima das coisas que citei. Um grande amigo. Digo isso ao padre da minha igreja. Na primeira vez que fui falar com ele, eu estava na presença de uma amiga, e agora o amigo vai rir. Minha amiga tinha um nervosismo pulsante na face. Sr Francisco veio trocar umas palavras conosco, todo sorridente comprimentou a minha amiga nervosa (A bichinha tremia igual uma vara verde.) E eu fiz algo inusitado. Não dei a mão. Fiz uma reverência com as palmas juntas. O sr. Francisco ficou todo sem graça. (Não sei por que?) Ele ficou em silêncio e fez o mesmo que eu. Isso já faz algum tempo, e hoje sou mais que uma paroquiana da igreja. Como ele mesmo diz. Que tem uma filha e amiga. Bom eu trato como um pai. E é assim que eu vejo um padre.

Anónimo disse...

Isso da “mistura” tem um lado meramente prosaico que causa estranheza. Dá-me ideia que os padres habitam num mundo à parte. Não se vêem padres na vida de todos os dias, a tratar de tarefas corriqueiras como nós. Não se encontram padres no sapateiro, farmácia, hipermercado, café, ginásio, no multibanco a pagar a conta da luz… O Papa Francisco ainda foi ao oculista; Jesus Cristo lá fez umas brasas e assou uns peixinhos para matar a fome aos discípulos; desconfio que a maioria dos padres não sabe acender o fogão e fazer uns ovos mexidos. Deste modo como poderá o padre ser um dos nossos?

Anónimo disse...

“O padre tem de se saber ovelha junto das ovelhas irmãs, pois o verdadeiro Pastor é Deus”

Precisamente. Esta dimensão "junto das ovelhas irmãs" é muitas vezes esquecida por um padre que se quer "pastor".

Confessionário disse...

13 novembro, 2015 16:25

Não leves a mal, mas tb me deixei rir com a dos ovos mexidos. Entendi a tua opinião, e de certa forma concordo. Mas o padre não tem de andar em todo o lado para ser um bom padre! Mais tb não podemos esquecer que há um cem número de maridos que não os sabe fazer e não é por isso menos paisou menso marido.

ahhh, eu sei estrelar ovos! heheheh

Confessionário disse...

JS, fizeste-me pensar, e pensar no bom sentido.
Eu sei isso. Penso que nós padres sabemos isso. Mas talvez nos tenhamos de lembrar mais vezes.

De quaqluer forma, pondo o acento nos leigos, não deveriam eles ver-nos como alguém que nos quer auxiliar?!

Anónimo disse...

Pais e maridos podem ser um desastre da cozinha e não são menos por isso porque (além do mais) são FAMÍLIA. A única forma que conheço para ultrapassar a estranheza é precisamente a familiaridade. Exemplo típico: a Coca-Cola “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
A questão em discussão não é a da qualidade do padre, mas a da estranheza que o padre pode causar. E enquanto se estranha não se entranha…

Confessionário disse...

13 novembro, 2015 18:29

é exactamente essa a questão.
Nem sequer está em causa o que o padre pode ou não fazer, como ou não ser, como ou não viver esta situação... Mas como a pessoa a vê a vive!

Anónimo disse...

Bem, do meu ponto de vista, a técnica necessária para um bom ovo estrelado bate aos pontos a dos ovos mexidos! Agora só falta o Sr. Padre aprender a acender o fogão.

Confessionário disse...

14 novembro, 2015 10:36

No tempo do gáz era mais fácil... agora no tempo das placas eléctricas existem demasiados botões... heheheheh

JS disse...

Não deveriam as pessoas ver os padres como alguém que os quer auxiliar?

Há gente que simplesmente não precisa de auxílio. Encontram-se numa fase boa da sua vida, satisfeitos com o emprego, tranquilos em família, em paz com Deus. Um médico a querer auxiliar pessoas que vendem saúde é contra-senso, perda de tempo para ambos.

Outros não dão conta de precisarem de auxílio, ou acham que resolvem as coisas sozinhos. Penso numa doença que avança silenciosamente, bem escondida, ou cujos sintomas se assemelham a uma vulgar constipação que se resolve com umas colheres de mel e um shot de aguardente.

Outros precisam de ajuda, mas vão encontrar auxílio junto de outra pessoa: um amigo, um familiar, um vizinho... O padre não é o único que pode auxiliar, o único instrumento de Deus disponível. Por vezes, aquela pessoa auxiliadora não é propriamente recomendável aos olhos do padre; mas acaba por dar conta do recado. Há também quem acabe enganado; e a precisar de mais ajuda do que antes.

Outros precisam de ajuda mas não estão preparados, não têm (ainda) força de vontade para aceitar a mudança que importa realizar. É o fumador que vai ao médico em busca de alívio para o catarro persistente. O médico sabe o que é preciso mudar; e o paciente também. Mas a consulta pode acabar com o médico a receitar um spray ou um xarope. A pessoa terá que auxiliar-se a si própria primeiro. O médico pode estar com grandes sermões, mas não adianta grande coisa; por vezes, apenas deixa o paciente mais irritado e com vontade de não voltar à presença do médico.

Outros precisam de ajuda mas sem que o padre os possa ajudar. Ou porque não está disponível (física ou emocionalmente). Ou porque o padre não tem competência (não chegam as boas intenções e a boa vontade...). Ou porque não é o seu papel (por exemplo, alguém que procura o padre para desabafar da falta de atenção do marido. O padre pode escutá-la e aliviar-lhe a mágoa; mas não pode ser um marido substituto).

Outros solicitam a ajuda do padre, mas apenas a partir dos seus interesses, na base de uma relação cliente-empregado. Pagam, por isso exigem. Têm direitos, não têm deveres. Querem para hoje, agora. Querem à maneira deles; as regras são para os outros. Fazem o choradinho, tentam a graxa, movimentam cunhas, indignam-se e dão murros na mesa se não obtêm o que querem. A frustração costuma ser grande, de ambas as partes.

Outros nem sabem para que serve a ajuda do padre. Parece-lhes irreal, disparatada, uma idiotice. São as tais águias criadas em galinheiro, habituadas desde sempre à vida de galinhas. Pode-se lhes falar de voar, de liberdade, de descansar nos penhascos mais abruptos, de fazer dos céus o seu domínio. Soa-lhes a loucura. Ignorarão o mensageiro. Ou tentarão calá-lo à força.

Anónimo disse...

Isso daria mangas para outro post.
O que buscas num padre?

Confessionário disse...

14 novembro, 2015 11:49

Tenho posts mais antigos sobre isso!

abraço

Paulina Ramos disse...

"A questão em discussão não é a da qualidade do padre, mas a da estranheza que o padre pode causar. E enquanto se estranha não se entranha…"
Uma afirmação plena de sentido, no entanto a estranheza que o mesmo pode causar está estritamente ligada à "qualidade" do mesmo.

"pondo o acento nos leigos, não deveriam eles ver-nos como alguém que nos quer auxiliar?!"
Sem dúvida alguma os Padres deveriam ser vistos como alguém que nos quer ajudar e há-os que ajudam mesmo... mas da maior parte deles apenas saem palavras bonitas, discursos tecnicamente correctos mas ocos porque desprovidos de actos que lhe façam justiça.

Acho que nesta área funciona melhor o exemplo e isso poucos querem saber o que "isso" é.