quinta-feira, março 23, 2017

Padres exclusivamente espirituais

Não falo dos padres que se esforçam por ter uma grande espiritualidade. Refiro-me aos que vivem uma espiritualidade exclusiva. Uma espiritualidade que exclui. Uma espiritualidade que tranquiliza e sossega. Uma espiritualidade que se justifica para não ter mais nada que fazer. São aquele tipo de padres que gastam a sua vida na sacramentalidade das celebrações e não dedicam nada do seu tempo à sacralidade da vida. Padres que se esgotam a pregar e se desculpam com as mil pregações que têm de fazer. Padres que precisavam sentir na pele a pele de outra pessoa. Ou sentir na carne o peso de outra pessoa. Padres que entram na casa das pessoas para as abençoar, mas se esquecem de curar as suas feridas. 
Eu sei que não dá de beber quem não tiver o copo cheio. Sei que a espiritualidade sacerdotal é uma das dimensões mais fundamentais do sacerdócio. Sei que muitas vezes é a sua ausência que faz um mau sacerdócio. Mas também sei que outras vezes é a desculpa certa para ficarmos por ali, por uma espiritualidade exclusiva, que exclui.

terça-feira, março 21, 2017

para lá [poema 133]

Entrei pelos teus olhos a sangrar
Entrei pelas sombras como se houvesse sol
a sangrar

Entrei fora das horas e do tempo
Entrei como se a noite fosse o dia
do tempo

O sangue não parava de jorrar
E de fazer nascer as flores
Pelo tempo fora, como se o sangue
Fosse vida para lá da vida

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

quinta-feira, março 16, 2017

coração às costas [poema 132]

Rasga-me o coração este grito de espera
Que aproxima um ponto final em ponto cruz.
É consentido, e caminha em meu sentido,
Mesmo que eu lhe rogue não ter sentido.

Com o coração às costas a percorrer o calvário
Grito para dentro, grito sem voz e para vós:
Ó Senhor, esta noite vai ser apenas a noite
E amanhã estarei ao fim da estrada para vos ver

quarta-feira, março 15, 2017

espelho fechado [poema 131]

Um dia hás-de querer ser
Pedra lavrada por um deus.
Não serás mais que chão
Noite sempre a adormecer

Espelho dobrado em dois
Sobre si mesmo desejo de ser.
É pálido este espelho, ou são três,
Faz de conta, sem que seja viver.

No livro por escrever
Vai morto, sem saber
Vai escrito, mas sem dizer
Espelho dobrado em dois

Ou em três.

segunda-feira, março 13, 2017

Via Sacra de um simples discípulo

Senhor, estive a reescrever a tua via-sacra para fazermos a encenação do teu amor aqui na paróquia. Reescrevi cada gesto, cada pedaço da tua vida concentrada nesse calvário de amor. Este ano quis escrever com o coração posto nos teus discípulos. Concentrei-me neles, logo atrás de ti. Concentrei-me em mim logo atrás deles. Revi-me em quase todas as personagens. Doeu-me, Senhor, cada reação da multidão, dos sumos-sacerdotes, dos anciãos, de Pilatos, dos soldados. Doeu especialmente a negação de Pedro, a traição de Judas, todos os que dormiram enquanto agonizavas. Tudo me doeu a reescrever este caminho tão doloroso. Valeu-me o Cireneu, a Verónica, as mulheres que choravam por ti, o criminoso arrependido, a tua mãe. Valeu-me ainda mais aquele momento em que desceste da cruz para nos levares, contigo, em ti, à felicidade que o Pai, desde o início, cuidou para nós!

sábado, março 11, 2017

Quaresma despojada de cristãos

Éramos dez pessoas. Ou em tom jocoso, como alguém poderia dizer, eram nove pessoas e um padre. Eu mais nove pessoas. Despojados de tudo para iniciarmos a Quaresma. Repito De tudo mesmo. Despojados até de pessoas. Claro que a Quaresma não vale pelo número dos que participam na missa de quarta-feira de cinzas ou na cerimónia da Imposição dessas cinzas. Mas fez-me impressão começar a Quaresma deste modo. Que o meu primeiro acto celebrativo ocorresse com um tão reduzido número de cristãos. Não meço a fé ou o cristianismo por números. Esse assunto daria linha para muita renda. Contudo, a minha sensação foi ter começado a Quaresma num total despojamento. E isso fez-me pensar muito.

quarta-feira, março 08, 2017

Ficar horas por ali

Já deve ter dado para perceber, pelas vezes que escrevo diante do Senhor exposto, que gosto imenso desse espaço de oração. Ficaria horas por ali. Gosto de estar sozinho com Ele. De preferência com mais gente à volta, mas que não me distraia. Gente que me faça sentir Igreja e comunidade naquela hora de intimidade com o Senhor. Gosto e pronto. Mas isso não significa que o tempo passe sempre sem que se dê conta. Também dou por mim a olhar o relógio, a distrair-me com uma mosca, com a beleza do espaço. Além disso falo bastante. Entrego-lhe muitas coisas. E entre estas distrações e palavras, custa-me o verdadeiro silêncio. Estar assim. Sem dizer nada e à escuta. 
Em tempos li que um determinado asceta gastava horas a respirar e em silêncio até descobrir Deus nesse tudo. Mas que foram meses e anos de trabalho interior. Gostava de também ser asceta, mas em muito menos tempo, que eu sou fruto desta época de imediatismo. Gostava de um dia poder dizer, como aquele camponês que passava horas na Igreja do Cura D’Ars, quando este último lhe perguntou o que fazia nesse tempo. Eu olho-o e ele olha-me.

sexta-feira, março 03, 2017

Os seres perfeitos dos padres

Sinceramente, e não levem a mal, às vezes tenho alguma pena das pessoas que fazem uma imagem dos padres como se fossem seres perfeitos, sem dúvidas, sem questões, com tudo já sabido da parte de Deus, como se tivessem o privilégio de saber as coisas de Deus antes dos outros. Ou daquelas que olham para os padres como alguém que vive acima do mundo, na estratosfera dos seres angelicais. Ou ainda daquelas que só querem saber dos padres quando querem saber de si mesmas, e lhes exigem os sins todos, como se eles tudo pudessem fazer. 
Tenho pena delas e mais pena tenho de mim. Pois queria ser apenas eu, sem mais, e ser apenas mais um padre que tem de esforçar-se... como todos os cristãos.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

O que faz um padre quando faz um funeral II

Se há coisa que mexe comigo são os funerais. Quem me conhece sabe que um telefonema da funerária me desestabiliza e incomoda. Em tempos idos quis desculpar-me com o funeral da minha mãe. Mas isso não fazia sentido, porque foi algo muito especial e que recordo como uma marca da minha vida e da minha fé. A verdade é que os funerais não me deixam indiferente, e lido com eles a fugir deles. Não fujo da sua celebração, da sua realidade, daquilo que tenho e devo fazer. Mas interiormente é como se fugisse. 
Há dias, numa das minha meditações e devaneios espirituais, encontrei três respostas à pergunta que me fazia a mim mesmo sobre o que fazia quando fazia um funeral. Recordo que uma era a de que o padre cumprisse o ritual secular da morte como um dever cívico, social e algumas vezes laico. A outra era que o usasse de forma meio proselitista. E a última era que no funeral o padre se deixasse usar por um Deus que habita o homem, sobretudo quando sofre. 
Entretanto, chegaram à beira da minha meditação aquilo que poderia classificar como os auxiliares de um Deus que não me quer encerrado em poucas respostas, e a coisa fez-me bem. 
Alguém me disse, e não sei se recordam, que o padre faz num funeral aquilo que é pago para fazer, isto é, fazer o funeral. A pessoa não soube o alcance da sua proposta, mas eu pensei que essa poderia ser a minha quarta resposta. De facto, pode haver quem faça o funeral por cumprir o tal dever cívico ou social, e pode haver, por outro lado, quem o faça ou cumpra pelo preço do seu trabalho. 
Outro alguém, que muito prezo, esboçou uma resposta que bem poderia colocar ao lado da minha terceira resposta, a do padre que se deixa usar por um Deus que habita o homem. Dizia ele que o padre também poderia ver naquela urna a Cristo expirado, e tomasse aquele corpo sem vida como a própria Mãe o tomou depois de descido do madeiro. Que estremecesse com a dor e a revolta de Deus, como quando a terra tremeu, o véu do templo se rasgou e os túmulos se abriram. Que pressentisse no meio do silêncio e das lágrimas a madrugada de Páscoa. 
Ó Senhor, afinal, eu ainda não sei tudo do que faço quando faço um funeral!