sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Beijar o menino Jesus

A senhora, que é minha paroquiana de uma das sete anexas que estão ao meu cuidado, para além das sete paróquias que fazem actualmente parte da minha missão como pároco, veio ao meu encalço antes de uma das eucaristias que, mais ou menos, duas vezes por mês, celebro nessa comunidade anexa. Passara pouco tempo da época natalícia, e ela demonstrava a sua insatisfação pelo facto de eu não ter lá ido proporcionar-lhes, como ela disse, a possibilidade de “beijar o menino”. 
Primeiro respondi-lhe, em tom acolhedor, que me era impossível, por mais que quisesse, aceder a todo esse tipo de pedidos numa ocasião como o Natal. Bem compreendia, e repito que compreendo cada vez mais e melhor como é importante para as pessoas determinadas tradições que acabam por fazer parte da nossa tradição católica. Cada vez sinto mais que devemos esforçar-nos por manter coisas que, no fundo, nos caracterizam. O “beijar o menino”, apesar de ter muito que se lhe diga em termos eclesiais, higiénicos e sociais, parece-me que faz parte desse conjunto de coisas a manter. No entanto, como já não é possível fazer o que se fazia há uns anos, quando um padre tinha a seu cargo poucas comunidades, também não seria possível celebrar mais missas do que as que celebrei pelo Natal. Nem foi possível celebrar eucaristia em todas as paróquias. Claro que poderia ter lá ido posteriormente. Acabou por me ser impossível. Afinal, também lhes tinha proporcionado celebrar festivamente a alegria de um Deus que nos ama no dia 23 de dezembro, um sábado bem perto do Natal. 
Mas todas essas explicações não foram suficientes para ela, que começou, numa expressão tipicamente portuguesa, por “desbaratinar”. Eu quase “desbaratinava” também. Mesmo assim, deu-me a oportunidade para, no final da eucaristia, recordar algumas coisas que me pareceram importantes, como por exemplo, que já não é possível fazer o “de sempre” e que, mais cedo do que pensamos, até o que temos vai ser difícil assegurar. Ou que é sempre possível deslocar-se à paróquia mais perto para esses fins. Mas não. Nada disso foi suficiente para a senhora que, assim que saiu da Igreja, começou com impropérios. O que mais custa é que ainda haja quem reduza a sua fé a coisas como “beijar o menino”.

terça-feira, fevereiro 20, 2018

sondagem "best post" 2017

Depois de ler as vossas opiniões, e adicionar-lhe a minha opinião, vamos colocar à votação os textos/prosa que parecem os melhores 10, para, através da sondagem afixada, podermos apurar os melhores três. Se quiseres lê-los de novo, tens o link respectivo abaixo da sondagem. Também podes justificar as tuas opções. 

Apresentamos ainda as conclusões da anterior sondagem que perguntava: "O que pensas que é o Natal hoje?", onde se destacou a resposta "festa das prendas".

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

poema sem nome [poema 172]

Escreve-me na pedra que te atirei
Desenha-me uma estátua por esculpir
É só um esboço, meu amor, que conheces
Do que fui não mais voltarei a ser
Do que sou não mais quero temer
Se escreveres nessa pedra, eu serei
O que a vida tem de mim para viver.

terça-feira, fevereiro 13, 2018

É carnaval, ninguém leva a mal

Não sei para onde vão estas linhas que começo a escrever. O dia de hoje é conhecido por um dia de excessos desculpados pela própria data. Ninguém leva a mal. Ninguém pode levar a mal. Haja, ao menos, um dia no ano em que ninguém leva a mal o que acontece. Eu não levo a mal que haja um dia assim. Um dia em que se faz de conta que nada é a sério. Mesmo quando a vida continua a acenar com pesos, dificuldades, problemas. Isto é mesmo a brincar, dizem. E parece. A vida parece uma brincadeira. Dá a sensação de que é carnaval todo o ano. Ou que já ninguém brinca aos carnavais. Porque estes são a sério. 
Não saí de casa, hoje, para variar. Fiquei a ler textos e notícias sobre a Igreja, sobre o cardeal patriarca de Lisboa, sobre o Papa que fez assim e é assim, mas tem uns cardeais ao seu lado que o olham de lado. E mais uma cambada de vozes que se atiram ao Papa para dizer que este está a estragar dois mil anos de história e de Igreja. Mais uma cambada idêntica que ataca, assanhadamente, a Igreja, ou melhor, a ICAR, como teimam em chamar-lhe, para reivindicar ou para demonstrar que é baseada numa mentira. E mais uma ou outra notícia que dava conta de umas corrupçõezinhas aqui e ali, mais umas mortes na estrada, ao volante, ou em casa, por uma familiar a quem a depressão causa um distúrbio que dá nisto. 
Afinal está a chover lá fora. Eu bem disse que não sabia o rumo do que estava a escrever. Estava aqui a pensar que apetece fazer de conta que está sol e que tudo não passa de uma brincadeira de carnaval.

sábado, fevereiro 10, 2018

Os pássaros [poema 171]

No espaço entre um pássaro
E outro pássaro está
O tempo de um voo
Que os separa e une
Que os religa e afasta

No espaço entre um pássaro
E outro pássaro está
O vento que passa
O espaço, essa coisa que está
Entre um ser e outro que é
Para que possam ser,
Para que possam voar,
Livres, como pássaros,
na possibilidade de serem mais
Pássaros

O espaço entre dois pássaros
É o que os liga à vida de pássaros

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Senhor padre, estou sempre a pensar em Deus.

Era uma daquelas santas, mas tão santas, que vive quase exclusiva ou obcecadamente para ser santa. Um tanto como aquelas meninas ou meninos que entram em programas de televisão de entretenimento para ganharem fama de vips, importantes, ou o que nos valha que pareça que são.
Eu sei que a santidade é uma das metas da fé. Mas fazer disso o apanágio para que os outros tomem conta da nossa fama, vai la vai. Olha, aquela tem fama de santa! E eu acrescentaria. De pau oco. E olhem que faço esforço para evitar esse tipo de julgamentos. Mas valha-nos Deus ou santo António. Ela insistia em contar-me tanta virtude, mas tanta virtude, que ela era isto e fazia aquilo, e evitava aqueloutra coisa.
A santidade era tal, que a determinada altura chegou a dizer. Senhor padre, estou sempre a pensar em Deus. Dia e noite estou a pensar n’Ele. E deixava decair as palavras, em vogais abertas e alongadas, para as reticencias, do tipo “todo o tem…po do di…a… e da noi…te…” (não sei se por as reticencias antes ou depois!) E pergunta o padre, que era este pobre pecador, eu mesminho: Mas então a senhora nunca dorme?

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

"best post" 2017

Embora sabendo que não é o mais importante, parece-me que esta é uma forma de revermos textos, pensarmos de novo, e ajudarmos o autor deste blogue a verificar caminhos. Assim, peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles textos/prosa que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes em 2017. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração.
Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. Foi uma selecção elaborada com base nas visitas e comentários específicos, e na minha opinião pessoal. A mim fez-me bem relê-los. Pode ser que faça bem a mais alguém. 
Dado que este ano foi um ano com disponibilidade diminuta, não foi possível fazer este exercício no que se refere ao ano de 2016, mas em breve, encetarei essa proposta. 

terça-feira, janeiro 30, 2018

A Igreja precisa de padres?

Dava um bom título para um dos nossos pasquins mediáticos. Assim como dava um bom artigo de teologia numa revista especializada. Mas a pergunta surgiu numa reunião de padres que se queixavam a propósito de uma notícia badalada na comunicação social e que percorreu as redes sociais. 
O padre ainda é preciso para fazer funerais, as festas bonitas de alguns sacramentos e as festas populares com procissões e romarias que terminam com bailaricos, cantores famosos e muita bebida. Nalgumas paróquias servem ainda para as reclamações de missas, sobretudo as de sétimo dia ou de notícia, aquelas missas com intenções, em determinados aniversários de defuntos. 
São, a meu ver, necessidades autênticas e que a Igreja deve valorizar. Mas a pergunta, para mim, é muito mais profunda. A pergunta mexe com a razão verdadeira da existência dos sacerdotes, a própria existência da Igreja Católica, Apostólica e Romana, e que hoje já é costume chamar de ICAR (não gosto nada que lhe chamem assim, como se fosse o nome de uma instituição que se designa pelas suas iniciais e não pela sua razão de ser, o mandato de Cristo).
Precisa a Igreja dos padres, quando o seu número tem tendência a diminuir drasticamente e já não se conseguem manter as comunidades cristãs como no tempo da cristandade? O futuro dir-nos-á da necessidade dos padres, mas di-lo-á na procura daquilo que é a sua missão específica. Com o tempo creio que a Igreja assentará sobretudo no Povo de Deus que é constituído maioritariamente por leigos. Em breve serão eles a tomar conta das comunidades cristas, com um sacerdote que vai passando a celebrar missa de vez em quando. O próprio tempo fará com que deixemos de querer manter o de sempre. Talvez nessa altura descubramos que a Igreja é de Deus e não ao contrário, que a Igreja tem um deus. Na verdade, não é Cristo que precisa da Igreja, mas a Igreja que precisa de Cristo. 
Talvez nesse tempo sejamos obrigados a dar conta que os padres só são necessários porque Cristo é necessário.

sábado, janeiro 27, 2018

o verbo [poema 170]

Há uma palavra que não sou eu
Mas diz-se como se me habitasse
Vai-me soltando por entre os dedos
Como se suportasse
Esse segredo
Que não é seu

Vem ou vai, morre ou nasce
Sobe ou desce
pelo céu

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Os padres impecáveis

Há tempos trocávamos aqui palavras sobre os seres perfeitos dos padres. Agora apetece-me falar dos mesmos, mas trocando os adjectivos. Falarei dos padres impecáveis, desses que, porventura, vivem para mostrar o Deus impecável que lhes dá poder, através da ordenação, de serem impecáveis. Esse Deus que não os habita, porque eles devem precisar pouco dele, dado que são impecáveis. 
Não sei quem são nem onde existem esses padres. Nem sei se existem. Por mim cá continuarei como S. Paulo, a professar que Deus entra na nossa fragilidade para lhe darmos espaço, a Ele e à sua força. E para que tudo o que façamos seja expressão dele e da sua força de amor, e não da nossa suposta impecabilidade. 
Como disse em tempos um grande amigo, uma coisa é fazer as coisas bem, e outras fazê-las brilhar!