sábado, julho 29, 2017

As respostas que não se dão porque não se têm

Quando alguém me interpela, como ainda ontem a pequena Tânia, uma paroquiana adolescente que conheço bastante bem, dizendo que não entende muito a Deus, ou a Igreja, ou estas coisas da vida, eu sinto-me um pouco impotente. Foi assim que olhei a Tânia e com naturalidade lhe disse que também não entendia tudo. Creio que é muito melhor sermos honestos com Deus, com os outros e connosco, do que fazermo-nos donos e senhores daquilo que nos ultrapassa. A Tânia esperava que eu lhe desse a resposta que precisava, mas eu não a tinha. Além disso, ela tinha de procurar a resposta dentro dela. Como eu também a procuro dentro de mim. Isto não é ser frágil. É ser o que somos, e assumi-lo com naturalidade. Não dei muitos conselhos à Tânia. Não usei a doutrina ou as verdades inquestionáveis da fé. Usei apenas a sinceridade do meu coração e da minha fé. E foi isso que a Tânia levou. 
Mas foi com a certeza de que afinal não estava mal diante de Deus. Estava tão só como é.

quarta-feira, julho 26, 2017

és a verdade [poema 153]

Entre o que é e o que não é
Vão as palavras que cada um diz
Na verdade do que é ou do que se quer que seja

Entre o que é hoje e é amanhã
Vão as mágoas do que não é
Na verdade que se constrói de boca em boca

Só uma verdade é sempre a verdade
Aquela que és.

sábado, julho 22, 2017

Um senhor Joaquim

O senhor Joaquim, de idade acima da média, veio à sacristia falar-me da pessoa que íamos sepultar. Dizia que era um “pobre diabo”. Que se metia nos copos. Que na sua casa as condições estavam muito abaixo das normais. Por isso a Câmara se dera ao esforço de compor a casa. E a sua dignidade. Depois levantava ou encolhia os ombros e repetia Enfim. No fundo o que ele queria dizer era que apesar de tudo, era um homem bom. Como sempre quando se morre, acrescentei em pensamentos. Somos sempre bons quando morremos. E continuou. Agora imagine a família. Tem vários irmãos, por sinal. Nunca se incomodaram com ele e com a vida que levava. Mas agora já estão a falar em ficar com a casa que a Câmara lhe arranjara. Nunca trataram dele e agora querem tratar do que era dele. Olhe, senhor padre, faça-me um favor. Fale destas coisas na homilia. E insistiu. Que eu falasse, como se as palavras fossem iguais aos gostos. Senhor padre, fale disto ou daquilo porque é o que eu quero ouvir. Como se a homilia não tivesse de ser Deus a falar na Palavra. E como se os gestos não falassem muito mais que as palavras. E como se dizer o que está mal fosse igual a fazer algo para tentar modificar o que está mal. Percebem a que me refiro, de certeza. As palavras costumam ficar a alguns metros dos gestos. É que o senhor Joaquim, pelos vistos, tampouco tinha feito muito pelo senhor que levávamos a sepultar! Ou se calhar até tinha. Mas do modo como falava, dava a sensação de que não tinha.

quarta-feira, julho 19, 2017

sou uma pedra [poesia 152]

Sou a pedra que lançaste ao mar
Para entre pedras me rebuscar

Pedra que te adentra sem saber nadar
Para em madre pérola se transformar

E se por algum acaso regressar,

Irei quantas vezes for preciso
por entre estradas até ao mar


sexta-feira, julho 14, 2017

Ser ou não ser o primeiro em tudo

Havia um padre numa pequena aldeia para os lados de não sei donde, que era conhecido por uma certa soberba. Não era mau homem. Aliás, tinha fama de excelente pregador. Mas a soberba perseguia-o, e algumas vezes deixava-se apanhar por ela. 
Claro que não sei quem é este padre amigo. Nem o julgo. Sei apenas estas pequenas coisas que me contaram. Assim como também me contaram que um dia destes, numa das suas afamadas homilias, enquanto falava do pecado e dizia que todos éramos pecadores, todos sem excepção, saiu-lhe da boca algo mais ou menos assim: Meus amigos e queridos paroquianos, todos pecamos. Eu também peco. Aliás, eu sou o primeiro a pecar. 
Grande humildade a deste padre que, diante dos seus paroquianos, decidiu assumir a sua fragilidade, o seu pecado. Mas nisto uma senhora, já entradota na idade, levantou-se do meio da assembleia e dos bancos, e em tom aborrecido, respondeu, em alta voz, com uma pergunta mais ou menos assim: Até no pecado o senhor tem de ser o primeiro?

quarta-feira, junho 28, 2017

És aquele que és [poesia 151]

És o que não sei ter no meu quarto vazío
És quem o preenche para o soltar
Como vento, a soprar dentro das janelas
Como se fossem elas cada braço para te agarrar
À força de te ter as encerro
Depois de as quebrar para tu entrares

És a chuva que cai sobre as minhas lágrimas
encostadas ao teu rosto para as respirar

És cada minuto que tenho e não tenho
nas mãos cruzadas a agarrar, o quarto
As mesmas mãos que levam o quarto esquecido
pronto para voar

sexta-feira, junho 23, 2017

uma flor [poesia 150]

A flor que ontem, nos lábios, me trouxeste
Secou na madrugada de um dia que chegou
No coração se quedou, dentro de mim,
como o que é oferta e o que é uma flor

O que ontem foi amanhã não será
Ainda que teimes em querer voltar lá,
com outra flor

terça-feira, junho 20, 2017

Uma profissão de fé com pouca fé

Eu sei que isto parece mais uma das minhas queixas. Mas queixo-me só para ti, Senhor, baixinho, para que ninguém ouça o meu coração de padre a palpitar. Entrego-te estes miúdos que andam na catequese e que vão fazer a festa da profissão de fé. Entrego-te em especial aqueles que não voltaram a confessar-se desde a primeira comunhão, há três anos. E aqueles que não sabiam o acto de contrição para se confessar. E aqueles que pouco mais voltaram à missa e que, envergonhados, diziam que costumavam ir algumas vezes, que é o mesmo que dizer poucas, ou muito poucas. E aqueles que já nem sabem a oração do Pai-Nosso. Sim, essa oração que cada cristão deveria ter na ponta da língua, e que, pelo menos, este miudos tinham aprendido há quatro anos quando, na catequese, fizeram a festa do Pai-Nosso. 
Senhor, peço-te por eles, e pela Igreja dos tempos actuais que vive desta forma desprendida daquela que é a verdade da fé. Peço-te, em último lugar, por mim, para que não esmoreça a vontade de ser um verdadeiro modelo de fé, um verdadeiro testemunho do Evangelho, e não deixe de cumprir, em cada tarefa eclesial ou sacerdotal, o mandato que deixaste aos teus apóstolos de anunciar a Boa Nova, isto é, evangelizar.

segunda-feira, junho 05, 2017

simplesmente fé [poema 149]

Este pequeno nada
Que em mim é tanto
Cresce em pouco
E nada

Cresce enquanto
Tu queres e eu quero
Tanto

quinta-feira, junho 01, 2017

cabelo ao vento [poema 148]

Quem melhor me penteia é o vento.
Esse que serpenteia como o tempo
na hora interior de um momento,

É ele quem sabe cada cabelo que tenho.
E é por ele que eu venho
Até ao cimo da estrada

Venho e volto de mão dada

com o meu cabelo ao vento