domingo, janeiro 22, 2017

Que imagem tens de Deus?

Passado um mês e depois do processo de selecção de textos de 2015, foram colocados 10 textos à votação. Agradeço imenso o esforço daqueles que votaram. Os resultado estão no gráfico abaixo.
Destacaram-se três, que já foram colocados na página "best post" (aqui):
  1. Queres e eu queria
  2. Uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo 
  3. Amas-me, Senhor?
Prometendo que em breve faremos o mesmo processo em relação aos textos de 2016, hoje colocamos nova sondagem online, com a seguinte pergunta: Que imagem tens de Deus?

sexta-feira, janeiro 20, 2017

O “Silêncio” de Deus

Há dois dias tive oportunidade de assistir ao filme de Martin Scorsese, o “Silêncio”. Não vou fazer uma análise do filme, nem algo que se pareça a um comentário. Não costumo usar este espaço para fazer este tipo de considerações. 
Mas sinto necessidade de dizer que, quase ao final das duas horas do filme, a minha vida estacionou. Ficou literalmente bloqueada, no sentido positivo, num diálogo que o actor principal tem com uma voz ausente, isto é, com Deus. O filme, para mim, poderia ter terminado naquele momento. 
O diálogo pode resumir-se nisto. Depois de ter apostatado, depois de tantas buscas de Deus, sem o conseguir escutar, depois de ter caído na conta de que Deus, afinal, estava em silêncio, ele faz aquela que foi a minha grande descoberta no filme. Afinal Deus não estava em silêncio. Ele estava no silêncio.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Asas verdes [poema 128]

As asas de quem amo são verdes
E às vezes não lhes sei a cor.
Tão minhas e tão abraçadas, sei
Que por mim vistas são sempre verdes.

As asas que me amam são verdes
Não sei se são asas ou se lhas por.
Tão minhas e tão abraçadas, não sei.
Mas tenho em mim a certeza
de serem sempre verdes
as asas do meu amor.

domingo, janeiro 15, 2017

Os jovens que olham os padres

Que observam em nós, padres, os jovens que cruzam connosco nas ruas, nas escolas, nos bares ou até nas igrejas? Que observam em nós, padres, esses jovens, com jeans ou outras calças de marca, mais interessados no que parece do que no que se é ou se tem? Que observam em nós, padres, esses jovens que Deus ama como são e que se cansaram de uma Igreja que parece dizer-lhes pouco? Que observam em nós, padres, esses jovens que não sabem ainda como Deus os ama?
Às vezes, quando olho os jovens que se cruzam comigo na rua, fico a pensar no que pensarão de nós, os padres. Se calhar não pensam nada. Se calhar não perdem tempo com isso. Não perdem tempo com coisas que não lhes dizem absolutamente nada. Ou se calhar olham para nós com a comiseração própria de quem acha que esta coisa de ser padre é algo raro, estranho, meio do outro mundo, coisas da pré-história ou de outros planetas.
Cuido que se me pusesse na sua pele, olhava para mim, ou para nós, como aquele tipo de atletas que fazem da sua vida uma corrida. Correm para fazer sacramentos e sacramentais. Correm para cumprir um série de coisas estabelecidas pela Igreja. Correm para celebrar uma missa que, ainda por cima, é uma seca. Não se faz lá nada. Estamos ali a aguentar palavras sem contexto. Simbologias que ficam no mundo das simbologias. Cerimónias e mais cerimónias sem alegria e sem rostos.
Cuido que se me pusesse na sua pele, veria que os nossos rostos são rostos de gente sacrificada sem alegria. Gente que busca as mesmas coisas que todos buscam na sociedade enganadora de hoje. Rostos feitos de fraquezas dissimuladas e identidades arrastadas. Descobriria que afinal também estamos fragmentados, somos voláteis e andamos a correr em busca de um algo que parece não sabermos o que é. 
Cuido que se me pusesse na sua pele, não me daria, ou não nos daria, muitos ouvidos. Talvez eles até nos ouçam. Mas quando são obrigados a ouvir-nos. Ou não têm nada melhor para fazer. Ouvem-nos, mas como um zumbido que incomoda ao ouvido. Ouvem-nos como uma grafonola antiga e desajeitada. 
Não me quero meter na sua pele. Não quero pensar que se fosse um deles, seria este o meu modo de pensar. Realmente seria preferível não pensar em nada. Mas temo que os jovens de hoje não enxerguem em nós, padres, a alegria do encontro com Cristo, ou as maravilhas que Deus opera em nós, porque nem uma coisa nem outra são bem contadas ou nítidas. Ou que não nos enxerguem a rezar na intimidade com Ele. Ou que não nos sintam felizes por sermos padres, mesmo quando sofremos. Ou que não percebam em nós quanto Deus no ama, ao ponto de darmos a nossa vida por Ele. Ou que não dêem conta, por nosso intermédio, que Deus os ama também. E que os pode chamar... a ser padre.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Palavra [poema 127]

A palavra é o que nos religa à vida
Na margem dos silêncios.

É o que dissipa ou encerra,
Os silêncios, por fora de nós,

Ou por acaso é sua voz.

Ela é nossa, e não é, ou deixa de ser
Quando é aquilo que tem de ser.

É o que não sabemos fechar de nós
Na voracidade de querer sempre algo mais
de ser,

Dentro ou fora de nós,
Para nós ou para outros nós.

Ó palavra que não cabes em palavras,
Ó palavra que não calas os silêncios,
Ó palavra que não te fechas nunca em ti,

De palavra que és palavra?

terça-feira, janeiro 10, 2017

Um Deus que se ama ou que se acredita

Estávamos numa reunião de adultos com filhos na catequese, e provocara-os a dizer o que pensavam de Deus. Um pai mais atrevidote, e posteriormente corroborado por outros pais, afirmou sem problemas que acreditava em Deus. Que acreditava nele como alguém que criara e conduzia os destinos do mundo. Um ser acima de nós ou para além de nós. 
Ele falava de Deus como o ser que nos ultrapassa e até certo ponto tinha razão. Deus ultrapassa-nos e é insondável.  Tinha alguma razão aquele pai que não falava de Deus como Pai. 
Cuido que as suas palavras são fruto da época e da sociedade em que vivemos, depois dos filósofos da suspeita e da modernidade que pretendiam “matar” Deus. É a época em que se multiplicam os movimentos religiosos e espirituais. É a época do esoterismo, da gnose, do psíquico e do mágico. É a época que aceita Deus de qualquer modo, mas como um ser que não tem de interferir na sua vida porque, afinal, o homem é autónomo, é o deus das suas escolhas. 
Por isso é difícil falar ao homem de hoje de um Deus que ama e que, remexendo com o nosso coração e com o que somos, interfere em toda a nossa vida. Dito, em conclusão, por outras palavras, mais directas e mais objectivas. É mais fácil acreditar em Deus do que amá-lo.

sábado, janeiro 07, 2017

em busca do lar [poema 126]

Vivo numa casa sem paredes, construída em ruínas,
Atravessada por um caminho de asfalto não acabado.
Aqui a terra gosta de enroscar-se e o sol dorme no chão.
Habito só, no meio de uma multidão sem nome e sem dó,
Encerrado numa flor que cresce em busca daquele sol
Por sob a casa que herdei, sem o tecto onde acorda o céu,
Entre as florestas tecidas em fios de roupa ao vento,
Qual soldado em luta contra coisas que estão mortas.

Vivo em espera.
Sei que há um lar
Onde um dia destes
Hei-de habitar...

quarta-feira, janeiro 04, 2017

O sonho de ser padre e paróquia de outra maneira

Por vezes sonho com uma nova forma de ser paróquia e com um novo modo de ser padre. Penso que é legítimo sonhar para sair de mim e do comodismo da paróquia. Não. Não é um pesadelo. Não penso estas coisas exasperado com a situação. Ou como se a mudança fosse a única alternativa possível. Tenho apenas o sonho de um dia voltarmos à frescura das pequenas comunidades cristãs do tempo da Igreja primitiva. Menos organizadas, menos sacramentalizadas, menos hierarquizadas. Pequenas comunidades à descoberta de como ser comunidade. Sem certezas, dogmas e doutrinas. Como pequenos discípulos à descoberta de Jesus. Só Ele era o centro, a certeza, a mensagem. Só Ele mobilizava. Só Ele impactava para se viver como Igreja. 
Sonho um dia ser um simples cristão que é padre. Viver a fé com o compromisso de somente a viver para Viver. Não sei, na minha simplicidade, como arquitetar o esboço deste sonho. Mas sei sonhar. 
Talvez um dia, quando o céu se fixar na terra, mesmo que tenha de ser pintado pela mão de Deus, este sonho não seja só meu. E não seja só um sonho. 

Com este sonho começo o ano. Talvez em 2017 a Igreja renasça um pouco, as nossas paróquias se tornem mais comunidade, e nós padres sejamos mais autênticos. 

sábado, dezembro 31, 2016

O tempo passa e a vida vai atrás dele

O tempo passa e a vida vai atrás dele. São dois grandes parceiros. Contudo, um deles permanece aqui e o outro só permanecerá além. Não é bem um matrimónio até que a morte nos separe. Mas quase. São dois parceiros que caminham lado a lado, irmanados. 
Faltam, nesta hora, algumas horas para que um novo ano aconteça. Todos estamos atarefados com aquele momento em que se passa de um ano a outro. Essa meia-noite que se prolonga em copos, saltos, diversões, e beijos e abraços como se não houvesse amanhã. 
Teimamos em fazer desse segundo uma noite inteira. Teimamos em fazer parar o relógio. Como teimaríamos, se a varinha mágica existisse, em parar o tempo para que a nossa vida ficasse ali. Creio que vivemos uma vida a correr, convencidos de que ela está parada. Convencidos de que não há amanhã. Nem há depois de amanhã. Creio que vivemos ensimesmados em nós próprios. Fechados em sensações de que não existe dor, nem morremos. Que tudo é uma maquilhação do divino. 
Mas o tempo passa e as vidas vão atrás dele. Termina uma e começa outra. Não é a nossa que recomeça. E cada dia que passa é menos um dia de vida neste tempo que não termina. 
Não estou melancólico, minha gente. Estou somente a pensar que estamos prestes a entrar em novo ano, e continuamos a viver uma vida como sobreviventes de qualquer coisa. Parece que não a vivemos. Parece que a deixamos andar. Parece que nos preocupamos mais com os embrulhos e com os laços que lhe pomos, que com a prenda que ela é. A vida é para viver como quem no-la deu. A vida é um dom gratuito que vai muito para além de nós. A vida é tão boa, mas tão boa, que devíamos viver em constante estado de agradecimento, em constante estado de alegria, em constante Viver. Deixem passar o tempo e verão como a vida vai atrás dele. 

Aproveito para desejar a todos os que visitam este espaço e lêem estas palavras que vou soltando, um ano de 2017 cheio de Deus!

quarta-feira, dezembro 28, 2016

O sacrário está vazio

Não sei o motivo, mas quando o meu colega expôs o Santíssimo para a adoração, deixou a porta do sacrário totalmente aberta. Se não fosse a dignidade do contexto, eu diria que ela estava escancarada. Mas não digo. 
Nunca reparara tanto num sacrário vazio. Possuía uma leve iluminação. Estava forrado com um dourado mascado. Não possuía nem paninhos nem cortinas. Contudo o mais interessante deste sacrário é que o seu espaço vazio chamou a minha atenção. Prendeu-a mais que o próprio Senhor na hóstia consagrada. Neste momento, tal como me ocorreu quando escrevia, podem surgir uma série de vontades ou sensações recriminatórias. Eu próprio quis dar um nome a esta minha desatenção da custódia. Não lho dei porque não o encontrei. Ainda pensei que era mais um dos meus estados de espírito mundanos.
Paro e penso que me quero referir aos pensamentos ou sensações acerca de um mundo vazio, vazio de si e vazio de Deus. Tentei mais umas quantas justificações. Todas elas edificaram a minha meditação desta noite diante do sacrário vazio. Todas elas preencheram o meu vazio. Todas elas me falavam do vazio. Do vazio de um Deus que se quer ausente. Ou apenas no mítico espaço dos deuses. Ou pior, um Deus usado para esvaziar o mundo.