domingo, dezembro 04, 2016

rever Confessionário Dum Padre em 2015

Depois de termos escolhido os melhores posts de 2012, 2013, e 2014, sem querer, deixámos o ano de 2015 sem fazermos o mesmo. Embora sabendo que não é o mais importante, é uma forma de revermos textos, pensarmos de novo, e ajudarmos este autor do blogue a verificar caminhos. Assim, e porque alguém me alertou dessa falha, seleccionei parte dos meus textos preferidos publicados ao longo do ano 2015, e agora peço a vossa ajuda para seleccionar aqueles que considerais ou considerastes como os melhores, os mais tocantes ou interessantes. Indiquem nos comentários o título ou títulos dos vossos preferidos. Agradeço desde já a vossa participação e colaboração. No início de 2017, faremos o mesmo para os textos de 2016. Como nas outras ocasiões, tenciono posteriormente colocar os melhores à votação. Podem sugerir outros que não estejam nesta selecção. Para mim, relê-los fez-me bem. Pode ser que faça a mais alguém. 
Nota que os poemas não entram nesta sondagem.
Quem quiser dar uma espreitadela aos "best post" de 2012, 2013, e 2014, clique AQUI.

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quinta-feira, dezembro 01, 2016

Um estacionamento especial

Foi numa dessas viagens para um destino meio conhecido que tive de estacionar o carro num local desconhecido. De entre os espaços para o acomodar, aquele pareceu-me o melhor. Mas como o carro é novo, fiquei desconfiado sobre se seria o local mais abrigado dos amigos do alheio. E nisto vi rondar, a poucos metros, uns indivíduos estranhos, dos tais que aparentam gostar daquilo que não é deles. Olha o que fui pensar. Fiz o que tinha a fazer e regressei tão depressa quanto pude. Já dentro do carro, e depois de observar se me faltava algo, constatei que estacionara junto a um portão enorme e que por detrás se vislumbrava um edifício igualmente enorme. Naquele momento abre-se parte do portão, e de lá sai uma irmã, uma freira, como lhe quiserem chamar. Era uma senhora vestida de hábito. Era uma consagrada, que trazia na sua mão dois sacos que, percebi depois, continham comida. Os dois indivíduos, separadamente e de forma sorrateira, olhando para a esquerda e para a direita a ver se alguém os acompanhava com o olhar, abeiraram-se da irmã, e receberam cada um seu saco, junto com um sorriso e uma troca de palavras que não deu para escutar. Liguei o motor do carro a sorrir para dentro, e saí daquele lugar magnífico que uns minutos antes me fizera desconfiar. 
Vejam o que a gente pensa e o que devia pensar.

quarta-feira, novembro 30, 2016

entrar no silêncio [poema 123]

Entrei no silêncio sem me dizer
Esgotei as palavras por escrever
Como a água quando vai beber
Ou a rocha nua se quer vestir

Entrei pelas palavras sem querer
Soltei-as como eram e as sentia
Eu nunca entrara donde saía
O meu estar era como um dia

Entrei só, e não me quis fazer
Gritei sem voz, gritei por vós
Desfiz as palavras e todos os nós
Em silêncio, ficámos a sós.

domingo, novembro 27, 2016

Perder o que se não tem

Depois de me cumprimentar com um sorriso, o genro do falecido alterou ligeiramente a tom da voz e a inclinação da cabeça para alegar o seu descontentamento. O funeral do sogro fora presidido pelo diácono, pois eu não estava, e outras dezenas de colegas que haviam contactado também não estavam disponíveis. Tiveram que aceitar o diácono ou o morto ficava por sepultar. Compreenderam, dizia ele, que eu não pudesse, pela distância a que me encontrava. Mas não compreendia onde a Igreja ia parar. Assim tudo acabava. Assim acabava a Igreja e a fé. Como se ambas estivessem dependentes de funerais. Ou como se o diácono não fosse Igreja como os padres e os leigos. E assim o meu amigo dava a entender que perdia ou poderia perder a sua fé, coisa que eu não me lembro de nas celebrações da comunidade ou fora delas ter percebido nele. Mas agora é que perdia o que não tinha. 
Pelos vistos são bastantes os que por causa de não terem o que queriam, dizem ter perdido aquilo que não têm.

sexta-feira, novembro 25, 2016

senhor padre tal

O pedaço de história que ouso contar foi-me sussurrado por uma amiga que um dia deu de caras, no local de trabalho, com um sacerdote que em tempos da sua juventude, quando ainda era seminarista, trocara com ela gestos e momentos de amizade. Tinham sido um para o outro amigos de tu a tu. Tu isto, tu aquilo. O tempo passou e não se viam com frequência. Nesse dia, ela cumprimentou-o com o mesmo entusiasmo de outrora e simplesmente chamou-o pelo primeiro nome, que era o que conhecia melhor. A resposta dele foi mais ou menos esta Minha cara somos todos irmãos, mas uns são mais irmãos que outros. Ao que ela replicou com um Claro sr padre. peço desculpa pelo abuso! Pôs-lhe ela o ponto de exclamação e escrevo tal como mo contou. E amuou, sem perceber a razão de tamanha superioridade. 
O que eu não disse à Juliana é que às vezes as distâncias deste tipo podem ter a sua utilidade. Porque há quem abuse ou distorça. Eu trato meus amigos por tu e gosto que me tratem por tu. Mas nas paróquias às vezes o “senhor” acaba por, ao menos, parecer conteúdo de maior respeito.
Mas o que me fez pensar a sério no assunto dos tus e dos senhores, ou das distâncias e dos nós e vós, foi o que ela contou no final. Pois o senhor padre, ao despedir-se, deu um arzinho de graça, e disse Adeus, Julianinha. Ela, que tirou um curso e não assina doutora porque não quer, não conseguiu responder-lhe, e dizia-me. Só faltava que nas assinaturas, também os padres assinassem como senhores, e repetiu as siglas, senhor padre tal.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Liberdade de não ter nada

Comprei algo que me custou bastante. Bastante dinheiro e bastante atenção. Bastante tempo e bastantes indecisões. Comprei algo que me é absolutamente necessário até para cumprir a minha missão sacerdotal. Um carro. Nem foi assim tão caro. É algo que comprei e que é meu. É algo que me pertence. E preciso. E hoje dei por mim a pensar que quando compramos algo que custa e que é novo, é quando damos valor à liberdade de não ter nada. Sim, lembrei aqueles que não têm nada e também não têm muito com que se preocupar para além do que é essencial. Aqueles que dão valor a cada pequenina coisa que possuem. Aqueles que, de tão pouco que possuem, têm todo o espaço do mundo para si mesmos e para Deus. Não precisam de preocupar-se se o carro está na rua ou na garagem. Se o esmurram ou se lhe estragam a pintura. Se está à chuva ou ao sol que queima. É nesses momentos, algo banais, que damos valor à liberdade de não ter nada.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus?

Senhor padre, como é que se pode amar mais a Deus? 
Uma pergunta destas que surge desprovida de contexto e sem se contar com ela, parece algo banal ou sem sentido. Mas não era banal e fazia muito sentido a pergunta da senhora Luísa. Uma senhora que eu tinha e tenho como boa paroquiana e como crente. Aliás, é pergunta que já me ocorreu em noites mais escuras ou em dias mais fechados em mim. 
 Na verdade, quando percebemos e caímos na conta do amor perfeito de Deus, que ama sem limites, sem interesses, em liberdade, sem maquilhagem, e quando isso contrasta com as nossas debilidades, com os nossos interesses, com os nossos medos, com a nossa forma tão medida de amar, a pergunta da senhora Luísa começa a ganhar sentido e uma série de novos contornos. Será possível amá-lo mais? Como poderíamos amá-lo na perfeição? Como podemos amá-lo mais? Que fazer para aumentar esse amor? 
Reconheço que a primeira reação que a senhora Luísa me incitou foi a de lhe responder com alguma doutrina à maneira, com palavras do costume, aquelas frases que nós padres temos muita mania em usar. Mas também não tinha palavras destas em mim. Naquele imediato e como quase sempre, foi o coração que falou sem que eu lhe desse autorização consentida. A melhor forma de amarmos mais a Deus é deixarmos que o seu amor entre mais ainda em nós.

sábado, novembro 19, 2016

O que pensas da nova apresentação do blogue?

A última sondagem esteve online um mês, e pretendia reflectir sobre o ano jubilar que termina agora. 
Não farei muitas considerações a propósito das votações finais, porque creio que o fruto mais verdadeiro deste ano da Misericórdia só cada um pode ratificar ou tornar válido dentro de si. 
Destaco apenas que a opção mais votada foi "algo positivo". Se considerássemos uma linha divisória entre os que achavam que tinha sido bom ou excelente e os que o consideram como algo ou pouco positivo, teríamos uma relação de 44% para 50%. 
O que poderá tudo significar? Que a ideia do papa Francisco chegou ou não aos seus destinatários? Que mudou muitos cristãos ou não mudou nada, nem neles nem à sua volta? Que foi apenas mais uma manobra de marketing? As respostas deixo-as no ar... para que alguém as agarre e as ponha em palavras.


Hoje surge uma nova sondagem, e pelos vistos, bastante simples: "O que pensas da nova apresentação do blogue?"

Para apreciar melhor o significado do actual banner, bem como recordar os anteriores banners, clikar AQUI

quinta-feira, novembro 17, 2016

Dia de padre é assim

Este dia que passou foi um dia atípico. Quando o relógio despertou já eu tinha despertado sem saber qual era o lado da cama onde estava. Erguido da noite, com as olheiras de quem ainda precisa mais tempo para ver o dia, abri, como sempre, as persianas das várias janelas por onde o sol costuma entrar. Carreguei também no botão do computador que diz On. É um exercício matinal para quem quer exercitar os seus neurónios dando umas voltas pelo correio electrónico, pelas últimas do face ou do blogue, ou então para ver os últimos documentos elaborados ou por terminar. Só depois deste exercício corro, porque já não aguento mais, para a casa de banho. Depois aquece-se um pedaço de água na chaleira, mistura-se-lhe chá, pão, manteiga e o que houver nas prateleiras do frigorífico, e come-se. Neste entretanto já tomei banho ou estou para tomar. Fazem-se umas orações, a maioria das vezes, a correr, porque algo me espera, nem que seja somente uma ideia que tenho da vida. Que algo sempre me espera. Começa a manhã de trabalho com milhentas coisas da paróquia e dos outros serviços onde faço algo. Deixo espaço para almoço, em casa ou com alguém que se lembre de me fazer companhia. Segue-se uma tarde que em pouco difere da manhã, a não ser que na manhã o sol está a pôr-se e na tarde o sol está a ir-se. Jantar depois de uma ou duas missas. É costume atender várias vezes o telefone e pessoas que aparecem na paróquia. Passo nalgumas catequeses ou nem por isso. Reúno-me para tratar assuntos. A noite termina já avançada. E é óbvio que não contei tim tim por tim o que aconteceu neste dia de padre atípico. Atenção que o dia é que é atípico e não o padre. Ou então não. Talvez o padre também seja atípico. Foi assim o dia de hoje. Tal como a maior parte dos dias da minha vida de padre. E dirá alguém dos mais atentos que não tem nada de atípico. Mas foi. Foi atípico, porque ao deitar-me, veio-me esta frase ao pensamento: a vida neste mundo é mesmo muito efémera!

quarta-feira, novembro 16, 2016

Outono [poema 122]

A folha imaginária de papel caiu no jardim
Soltou-se das árvores que o sonho labutava
com pincéis verdes que se faziam amarelos
com mãos de pintor que esgrimiam palavras

Caía o Outono dos pensamentos, chegara,
tropeçando nas horas das coisas, olvidado
Com ele tombou meu cigarro, por apagar,
Como a folha, sem imaginar, sem discutir
com Deus